terça-feira, 17 de agosto de 2010

Vaticano, um país dentro de uma cidade

Ciao, amigos!

Ontem acordei cedo! Tinha horário marcado para ir aos Museus do Vaticano. Mais um dos ingressos que comprei pela internet em um site chamado “Florence Tickets”.Eu teria de estar lá às 9 horas da manhã pra encontrar o rapaz da agência e trocar meu voucher pelo ingresso. Às 8h45 eu já havia chegado. Entramos eu e um grupo de mais 13 pessoas, a maioria franceses. O ingresso era só pra entrar, não incluía visita guiada. Ao passar da roleta era cada um por si. A gente entra e dá em um jardim com uma escultura esférica no meio que fica girando. Não consegui descobrir o que ela significava pois nada por aqui parece ter explicação. Ou você compra o guia na entrada ou fica sem saber. Aqueles folhetos de explicação básica que existem em todo lugar, aqui parece que ainda não inventaram...enfim...a escultura é bonita e tem um brilho singular.



Dali caí no Museu de arte Egípcia. Muito interessante! Tinha uma múmia super bem conservada e os vasos canopos onde eram colocados os órgãos retirados pelo processo de mumificação. O único órgão não retirado era o coração. Essa parte do Egito me desperta bastante curiosidade e fiquei um tempo ali naquele museu.


Saindo dele, cheguei ao Salão Octagonal com esculturas greco-romanas. Bonitas, mas nada de especial. A única particularidade é que a religião católica mandou cobrir, com uma folha de parreira, todos os nus. Então a gente vê aquelas estátuas antiquíssimas, de religião totalmente pagã, com aquela ridícula folhinha que dá pra perceber que foi colocada depois...ai, ai, a hipocrisia da Igreja...mas deixemos isso pra lá que esse blog não tem intenções filosóficas ou religiosas.


Porém, meu maior interesse no Vaticano era ver a Capela Sistina (meu e de 99% das pessoas que entram ali nos Museus!) e fui seguindo as placas que indicavam “Capela Sistina, percurso curto”, afinal, eu queria chegar lá o mais breve possível, antes de estar muito cansada de andar e, principalmente, antes da horda de turistas com seus guias. Fui andando, andando, até que me deparei com uma placa que indicava uma escadinha sinistra, num cantinho, meio escura e vazia. Achei que não poderia ser ali, mas como quem tem boca vai a Roma e eu já estou em Roma, resolvi perguntar ao segurança do museu se eu poderia descer ali e se daria na Capela Sistina. Ele afirmou que sim e lá fui eu. Não é que, ao descer, logo a esquerda, ali estava ela!? Linda! Realmente Michelângelo era um gênio! Dá pra ficar um tempão ali observando cada cena do antigo e do novo testamento. Desde a criação do mundo por Deus, passando pela célebre Criação do homem, depois a da mulher, onde Eva parece mesmo saindo da costela de Adão, a Arca de Noé, o nascimento de Jesus, até o juízo final. Aliás, essa foi a única foto que consegui tirar antes do segurança gritar (pra mim e para uma multidão de turistas): “No photo, please!” Guardei a máquina e fiquei ali vendo os detalhes de toda aquela beleza. Depois de quase uma hora ali dentro, voltei para os museus, pois queria ver as salas de Rafael. Eu não gosto muito da pintura dele, pelo menos do que eu conheci em Milão, Veneza e Firenze, mas dessas eu até gostei. Acho que são de outra fase. Lá estava a famosa “Escola de Atenas”onde ele pintou os grandes nomes do pensamento e da ciência como Platão, Aristóteles, Pitágoras, Epicuro, Sócrates, etc, etc, etc....






Saindo dali, passei por mais algumas salas interessantes, incluindo uma com pinturas modernas onde estava um quadro de Van Gogh. No fim de tudo, voltei à Capela Sistina para poder sair para a Basílica de San Pietro, dei mais uma olhada na belíssima obra de Michelângelo e saí. Contudo, antes de chegar ao interior da basílica há uma entrada para subir até o Domo (cúpula) e, lá fui eu. Subi os 320 degraus (na verdade, são 320 porque eu poupei 217 subindo de elevador, pois no total são 537).Pode-se pagar 5 euros para subir todos de escada ou 7 euros para subir só os 320. Mas o pior é que a escada vai ficando cada vez mais estreita e quando se acha que não pode piorar, a parede inclina e você se sente na Torre de Pisa, andando meio de lado e subindo degraus irregulares. Quem criou aquilo devia estar pagando alguma penitência. A vista lá de cima é bonita, mas, sinceramente, não vale o esforço. Uma vez eu li, em algum lugar, que ali de cima o ser humano tem a noção de que é o mais perto que se pode chegar de Deus, mas, cá entre nós, com toda aquela opulência que há no Vaticano, não consigo ver muito Deus ali por perto, não...me senti muito mais próxima dele no alto da Notre Dame, mas isso é uma outra história ( e que alguns leitores desse blog não venham querer dizer que estou comparando Roma com Paris, “pelamordedeus”!).



Depois de algumas fotos e uma água para recompor as energias, desci para ver o interior da Basílica de San Pietro. Ela é o mais importante santuário católico do mundo e todos os elementos são em ouro, bronze e mármore (este, roubado do Coliseu). Tem 186 metros de altura. A história dessa Igreja é a seguinte: no século XVI, Júlio II decidiu reconstruir a “Basílica de Constantino”, que era do século IV e que tinha sido erguida sobre o túmulo de São Pedro. Vários artistas participaram: Bramante fez o esboço da obra; Michelângelo fez a cúpula; Maderno fez a nave e a fachada e Bernini construiu o púlpito (que parece um relicário de bronze), protegendo assim, o túmulo de São Pedro. A basílica atual já passou por diversas reformas e os pontos mais importantes dentro dela, para mim, foram: A Pietá, do mestre Michelângelo, que é deslumbrante, fica na primeira capela à direita de quem entra pela porta principal e está protegida por um vidro blindado (vai entender....aqui em Roma uma obra de Michelângelo precisa ser protegida por vidro blindado, lá em Firenze o Davi, do mesmo artista, está sem nenhuma proteção além de uma grade baixa! Depois eu que implico com Roma, mas os próprios romanos parecem que sabem com quem estão lidando...)


E o túmulo do papa João Paulo II. Eu estava ouvindo uma explicação de uma guia em espanhol que dizia o seguinte: a maioria dos papas vêm de famílias nobres, que tem um brasão. E quando eles são enterrados aqui, coloca-se o brasão da família e o nome do papa morto, mas João Paulo II vinha de uma família pobre, sem brasão, então, ao morrer, criaram para ele um brasão onde o M é de Maria, já que ele era muito devoto da mãe de Jesus. O nome dele está em latim, como o de todos os papas, aliás, aqui no Vaticano existem duas línguas oficiais: o italiano e o latim e é nessa última que as missas ainda são rezadas.


Da basílica a gente sai na Piazza San Pietro, que foi projetada por Bernini (esse foi, sem dúvida, o maior arquiteto da Roma seiscentista) em 1630 com a ideia de reproduzir um grande abraço e que permitisse ao papa ser visto pelo maior número possível de fiéis (naquela época não existiam os telões que existem hoje). No centro dela há um obelisco que marca onde havia “O circo de Nero”, local em que São Pedro foi martirizado em 64 d.c. Eu descobri que para construírem a via della Conciliazione, que liga o castelo de Sant'Angelo à Basílica foram destruídas várias casas medievais e uma Igreja de Nossa Senhora da Conciliação (essa foi reconstruída mais tarde na ilha Tiberina, no rio Tibre). Essa passagem não era apenas por cima, mas também por baixo da terra, em corredores secretos que permitiam ao papa fugir em caso de necessidade extrema, como aconteceu com o papa Clemente em 1527.
Em tempo: Não se entra na basílica com os ombros e/ou os joelhos de fora. Nem adianta tentar que eles barram mesmo! Pode-se ir de bermuda e camiseta só aos museus e à Cúpula, mas no interior da Basílica, sem chance, portanto cubra os joelhos com uma saia ou calça e leve um xale para cobrir os ombros (aliás, em praticamente todas as igrejas aqui na Itália há essa regra, e como faz um calor infernal aqui no verão, quase todas oferecem um pano feito de TNT para que as pessoas desavisadas possam entrar, e não perder a viagem, mas adivinhem? Na Basílica de São Pedro eles não têm, ou seja, se você for de bermuda, perde a viagem!).
Almocei ali pelo Vaticano mesmo. Comi salada. Uma delícia! Como eu ainda tinha direito ao ônibus turístico, peguei-o para voltar pro hotel. Porém, no caminho, resolvi descer na Basílica de Santa Maria Maggiore. Dizem que é uma das mais bem conservadas aqui de Roma. Tem uma estátua do papa Pio X e um museu bem bonito, cheio de relíquias papais. Hoje foi um dia dedicado à religiosidade em Roma.
Voltei andando para o hotel, tomei banho e saí de novo. Eu queria ver a Fontana di Trevi iluminada, mas como ainda era cedo pra cair a noite, fui a um passeio diferente: o Time Elevator.



É uma espécie de simulador onde se vê um filme em 3D sobre a história de Roma (há fones de ouvido em várias línguas, escolhi espanhol, pois não havia em português) e as cadeiras são móveis e vão se movimentando e acordo com a história contada. Há um sistema que nos dá a sensação de vento e chuva. É muito divertido! São 25 minutos, custa 12 euros. Conta toda a história desde que Rômulo e Remo foram abandonados e adotados pela Loba, até a fundação de Roma e a cosntrução de seus monumentos, a morte de Julio César, as obras de Michelângelo, enfim....é muito bacana! Vale a pena!
Ao voltar para a fontana, comprei um crepe e sentei ali na frente dela para vê-la ir se iluminando à medida que a noite caía. É uma fonte bonita, obra de Nicoló Salvi, em 1762, mas que ficou imortalizada mesmo no filme de Fellini.


O dia terminou e voltei pro hotel cansada. Continuo achando Roma uma cidade dispensável no meu roteiro, mas como diz um amigo meu “se você está no inferno, abrace o capeta!”, então estou tentando tornar esses meus dias aqui no melhor possível. Vi coisas bonitas no Vaticano, principalmente as obras de Michelângelo que eu amo em qualquer lugar do mundo! Mas não vou jogar a moeda na Fontana di Trevi, pois Roma é uma cidade para a qual jamais pretendo voltar.

Arrivederci!

p.s. Aos leitores de plantão: não estou revoltada com nada, pelo contrário! Estou amando poder viajar e ver tudo o que estou vendo, apenas não gostei de Roma e ponto. Sem comparações com nenhuma outra cidade.

VIAGEM REALIZADA EM AGOSTO DE 2010